Notícia por Nuno Miguel
Como em tudo, os gostos de cada um predominam quando se discute se um filme é bom ou mau. Mas há algumas películas que conseguem reunir uma maioria absoluta para o "bom". Este será um desses filmes.
'Capitão Falcão' estreou há três semanas nas salas portuguesas e é provavelmente uma das produções cinematográficas mais interessantes em Portugal, ao longo da última década. Um super-herói que começa a sua escala numa prova na praia e termina num gesto íntimo com... António de Oliveira Salazar. Um justiceiro ao serviço do Estado Novo, mas que também vira comunista. Estranho? Há muitos factos e diálogos estranhos nesta obra de João Leitão. E ainda bem.
Que Gonçalo Waddington é um dos actores mais completos e mais competentes do nosso país, já sabíamos. No entanto, este filme confirma e reforça o seu estatuto. Enquadrado perfeitamente na (dupla) personagem que lhe foi atribuída, protagoniza momentos brilhantes. Uma das melhores cenas vistas nos últimos tempos surge nesta longa-metragem, sob sua responsabilidade, num interrogatório repleto de "preto no branco", muito bem conseguido. E com direito a bolos.
António de Oliveira Salazar é retratado por José Pinto. O jovem José Pinto. Homem de Vila Nova de Gaia, vizinho da Antena Web, continua a mostrar as suas qualidades, a sua regularidade e ainda tem genica para realizar movimentos bruscos, enquanto se esquiva dos "malditos hereges". Notável.
Ao longo do filme, mesmo que com passagens curtas, aparecem actores como Nuno Lopes, Miguel Guilherme (este com papel mais relevante), Rui Mendes ou Ricardo Carriço - que dá uns "ares" do Major Alvega. Mas não é ele.
Um enredo muito bem elaborado, cómico e diferente. Ao adjectivo "interessante", juntamos: 'Capitão Falcão' é provavelmente uma das produções cinematográficas mais originais em Portugal, na última década. Aconselhamos.
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quarta-feira, 13 de maio de 2015
quinta-feira, 9 de abril de 2015
Cinema: sal, terra e choque
Notícia por Nuno Miguel
A produção é franco-brasileira mas a realidade é internacional.
O filme em causa tem por título ‘O Sal da Terra’. Em formato documentário, resume a vida do fotógrafo Sebastião Salgado, sobretudo os seus últimos 40 anos, durante os quais esteve literalmente em todos os continentes do nosso planeta. Um resumo, por vezes, chocante. Mas real.
As fotografias, logicamente, comandam esta longa-metragem. São cerca de 100 minutos durante os quais o brasileiro Salgado – não há relação com o Ricardo, que se saiba – recorda os seus maiores projetos no mundo da fotografia. Ele que se formou em economia e que chegou a trabalhar para o Banco Mundial. O passatempo passou a muito mais do que isso e, com a companhia da esposa Lélia, mostrou-nos o mundo nas últimas quatro décadas. Com dedicação e coragem.
A Antena Web esteve presente na antestreia, na noite desta quarta-feira (8 de abril), e pode avisar: há imagens que chocam.
São fotografias que, no mínimo, não costumam estar no horizonte dos ocidentais. A fome na Nigéria, o genocídio no Ruanda e a guerra na Jugoslávia são provavelmente os capítulos que levarão alguns espetadores mais sensíveis a ponderar: “Vou conseguir continuar a ver isto?” – duas pessoas saíram mesmo durante a exibição do filme, na antestreia. Muita gente não está habituada a imagens tão explícitas, e tão próximas, de miséria e de sofrimento. São verdadeiras. As imagens e a miséria.
Suavizando estes cenários, e em contraste quase total, são exibidos também momentos bonitos e incríveis, que envolvem tribos que parecem do primeiro milénio, um urso polar em movimento, ou sobretudo aquilo que nos fascinou mais – a recuperação de nascentes e de milhares de hectares de mata atlântica (são dois milhões de árvores), que se transformaria num projeto do conhecido Instituto Terra.
Sebastião Salgado, hoje com 71 anos, já passou por muito calor, por locais perigosos, viu tiros serem atirados na sua direção, viveu num ambiente de 30 graus negativos, cruzou-se com centenas ou milhares de cadáveres... mas está vivo. E ainda está aí “para as curvas”.
Agora vê o seu percurso retratado num filme dirigido pelo seu filho Juliano Salgado, que trabalhou sob o comando do alemão Wim Wenders, por cá conhecido pelos filmes «O estado das coisas» e «Lisbon story». Ambos acompanharam Sebastião em algumas viagens, nos últimos anos.
Este filme, que foi referenciado na cerimónia dos Óscares, onde foi um dos nomeados para Melhor Documentário, estreou-se em França já há quase um ano. Chega a Portugal nestes primeiros dias de abril.
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